O inconsciente do trabalhador moderno: entre insônia e a fantasia da carreira perfeita
“Doutora, deito cansado, mas minha mente não para. Fico repassando cada detalhe do dia, revisando mentalmente reuniões, listas de tarefas, e comparando meus resultados com os dos colegas. Acordo com o coração acelerado, como se tivesse passado a noite inteira em pé diante do computador.” - Paciente
Essa fala, ou algo muito semelhante a ela, repete-se com frequência na clínica. São homens e mulheres de diferentes idades e profissões, mas unidos por uma mesma experiência: a insônia que não se resolve com chás, aplicativos de meditação ou até mesmo medicamentos. O corpo pede descanso, mas o inconsciente insiste em manter o sujeito em vigília.
No cotidiano, essa insônia se traduz em olheiras profundas, cafezinhos multiplicados durante o dia, irritação constante, crises de ansiedade e uma sensação difusa de nunca estar “inteiramente presente”. É como se a vida fosse vivida pela metade: metade no trabalho, metade na cama, mas em nenhuma das duas o sujeito encontra repouso.
A noite, que deveria ser tempo de esquecimento, se converte em prolongamento do escritório. As planilhas invadem os sonhos, os prazos se transformam em pesadelos. O inconsciente, fiel à sua lógica, não permite que o sujeito escape do que o atormenta de dia. O leito, então, deixa de ser espaço de intimidade e repouso para se tornar palco de uma repetição incessante.
Freud já nos advertia que os sonhos realizam desejos inconscientes (Freud, 1900/2019). Mas que desejo é esse que insiste em nos manter despertos? Talvez o desejo de corresponder a um ideal que nunca se satisfaz. O trabalhador moderno não deseja apenas trabalhar: deseja performar, destacar-se, provar que merece o lugar que ocupa. Não basta cumprir a tarefa: é preciso encarnar a imagem de eficiência que a cultura contemporânea impõe.
Esse cenário não é apenas individual. Ele é social. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país mais ansioso do mundo (OMS, 2017). E uma pesquisa recente mostrou que 73% dos trabalhadores brasileiros sofrem de insônia ou de distúrbios do sono relacionados ao trabalho (Associação Brasileira do Sono, 2022). São números que ocupam manchetes de jornais, mas que, na clínica, se revelam em carne viva. Não se trata de estatística abstrata, mas de sujeitos que, noite após noite, tentam repousar e falham.
Essas notícias funcionam como espelho coletivo do que escutamos individualmente. E, no entanto, o mercado responde a esses dados com novos cursos de produtividade saudável, programas corporativos de bem-estar, aplicativos que prometem “sono profundo em minutos”. Tudo isso oferece paliativos, mas não toca o ponto central: a impossibilidade de parar quando se está capturado pela fantasia da carreira perfeita.
Essa fantasia opera como miragem: quanto mais se avança, mais distante ela se mostra. O sujeito acredita que, ao alcançar determinada promoção ou reconhecimento, finalmente encontrará descanso. Mas logo após a conquista, surge uma nova cobrança, um novo patamar a ser atingido. A sensação de insuficiência não se dissolve: ela se reinventa. É nesse ciclo interminável que a insônia se instala como companheira fiel.
A psicanálise nos ajuda a compreender esse movimento. Lacan nomeou o supereu como tirano silencioso que ordena: “Goza!” (Lacan, 1960/1998). Em nossos tempos, essa ordem se traduz em: “Produza sem parar, não falhe, esteja sempre disponível.” O trabalhador moderno obedece a essa voz até mesmo no sono. Não dormir torna-se prova de dedicação, sinal de comprometimento. Quantas vezes não escutamos alguém dizer com orgulho: “Durmo apenas quatro horas por noite, mas dou conta de tudo”?
O paradoxo é cruel: quanto mais se busca sucesso, mais se perde a possibilidade de descanso. O corpo denuncia com fadiga, crises de ansiedade, adoecimento físico. Os vínculos pessoais se enfraquecem, porque não sobra tempo nem presença para o outro. O sujeito passa a existir apenas em função da máquina produtiva, como se sua identidade se resumisse ao cargo que ocupa.
A insônia, então, é mais do que sintoma médico: é metáfora de uma sociedade em vigília permanente. Vivemos no ritmo das notificações, dos prazos e das métricas, sempre conectados, sempre comparando. O inconsciente denuncia, através da falta de sono, a impossibilidade de desligar-se de um Outro que nunca se satisfaz.
Mas, se escutamos a insônia como sintoma, algo se desloca. Não se trata apenas de regular o sono com técnicas, mas de interrogar o pacto inconsciente que sustenta esse mal-estar. Por que o sujeito se sente tão ameaçado pela ideia de descansar? O que ele teme perder se parar por algumas horas?
Renunciar à fantasia da carreira perfeita não significa abandonar o trabalho, mas repensar sua função na vida. Talvez o descanso não seja inimigo da produtividade, mas condição para que o sujeito possa se sustentar fora da lógica da exaustão. Dormir, nesse sentido, volta a ser um ato de confiança — não no ideal inalcançável da carreira, mas em si mesmo.
O inconsciente não dorme, mas pode ser escutado. Na análise, o trabalhador descobre que não precisa obedecer cegamente ao supereu que exige sempre mais. Descobre que há vida — e até sonhos — para além da vigília ansiosa. Talvez a verdadeira liberdade não esteja em alcançar a carreira perfeita, mas em permitir-se, finalmente, fechar os olhos.
Referências
Freud, S. (1900/2019). A interpretação dos sonhos. Companhia das Letras.
Lacan, J. (1960/1998). O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Zahar.
Organização Mundial da Saúde (OMS). (2017). Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. Geneva: WHO.
Associação Brasileira do Sono (ABS). (2022). Relatório Nacional do Sono: hábitos e impactos na saúde dos brasileiros. São Paulo: ABS.
Com escuta,
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